segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Morte lenta

Gustave Courbet - Hombre Moribumdo

Morre lentamente quem não troca idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições...


Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo pra quem não conhece...


Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto e o branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos...


Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir de um conselho sensato...

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo...

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.


Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois, quando ela se aproxima da verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante...


Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar...

Frederico de Carvalho Marroquim